No dia 24 de agosto, a Ucrânia celebra o 35.º aniversário da restauração da sua independência. Em 1991, eu era ainda adolescente, pelo que toda a minha vida consciente decorreu numa Ucrânia independente. Na verdade, o meu país renasceu e transformou-se diante dos meus olhos, e gostaria de destacar algumas das principais mudanças ocorridas ao longo destas três décadas e meia, que determinaram o nosso presente e, em grande medida, o nosso futuro.
A primeira e fundamental mudança é que, finalmente, o mundo passou a conhecer a Ucrânia e a saber quem são os ucranianos. Não como uma república pós-soviética ou uma esfera de influência da rússia, mas como um país e uma nação livres e independentes. A minha geração ainda se recorda da atitude cautelosa dos nossos parceiros em relação à Ucrânia e às suas aspirações à independência, que, naquela época, eram encaradas através do prisma das relações com a então URSS e a sua liderança. A título de exemplo, um mês antes da proclamação da Independência, Kyiv recebeu a visita do Presidente dos Estados Unidos George H. W. Bush, que, da tribuna da Verkhovna Rada da então República Socialista Soviética da Ucrânia, tentou convencer os ucranianos de que «liberdade não é o mesmo que independência». O seu discurso entrou para a história sob a designação de “Chicken Kyiv speech”, por ter sido considerado excessivamente cauteloso e desligado da realidade ucraniana. Como George H. W. Bush recordaria mais tarde, o seu discurso resultou das impressões da reunião que tivera, na véspera, em Moscovo, com o líder de uma URSS já em processo de colapso. No entanto, no mínimo, o discurso do líder norte-americano na Verkhovna Rada desmente por completo a narrativa da propaganda russa, ainda hoje persistente, segundo a qual teriam sido os Estados Unidos a provocar o colapso da URSS. De qualquer modo, o vento da mudança e, com ele, a aspiração dos ucranianos à Independência já não podiam ser travados. O Parlamento da Ucrânia proclamou o Ato de Independência em agosto, posteriormente confirmado, em dezembro, por referendo, no qual 90,32% dos ucranianos votaram a favor, com uma participação eleitoral recorde de cerca de 84%. Importa salientar que todas as regiões da Ucrânia, sem exceção, incluindo a Crimeia e o Donbas, apoiaram a independência. Depois disso, foi necessário desenvolver enormes esforços para que o mundo nos conhecesse. Tudo isto decorreu num contexto de tentativas incessantes da rússia de voltar a colocar os ucranianos na sua esfera exclusiva de influência. No plano diplomático, estas tentativas foram acompanhadas por numerosas campanhas de desinformação, cujo principal objetivo consistia em convencer os parceiros internacionais de que a Ucrânia era um failed state — um Estado falhado — e que a única saída seria, alegadamente, a sua reintegração com a federação russa. É difícil enumerar todos os temas e instrumentos utilizados pela rússia na verdadeira guerra de informação que trava contra a Ucrânia desde o início da década de 1990. Entre eles, a narrativa sobre a alegada incapacidade económica da Ucrânia para sobreviver sem ligações à rússia durante a crise de 1998; as chamadas «guerras do gás» de 2005–2006 e 2008–2009, durante as quais Moscovo, através da ajuda do seu canal de propaganda Russia Today, difundiu no Ocidente fakes segundo as quais a Ucrânia «roubava gás europeu» e era um «país de trânsito pouco fiável». Durante a Revolução Laranja, tecnólogos políticos russos desenvolveram um mapa específico que dividia os cidadãos da Ucrânia em «três categorias», segundo critérios regionais. Foi também nessa altura que surgiram as falsas narrativas sobre «fascistas e nacionalistas» no oeste da Ucrânia, que o regime russo continua a utilizar ativamente até hoje para justificar a sua guerra de agressão contra o meu país.Quanto às reivindicações territoriais da rússia contra a Ucrânia, estas surgiram praticamente logo após a proclamação da Independência. Entre 1992 e 1994, a rússia financiou e apoiou ativamente os separatistas na Crimeia, que, naquela altura, foram derrotados. Em 2003, ocorreu o conflito em torno da ilha ucraniana de Tuzla, em cuja direção a rússia começou ilegalmente a construir uma barragem no Estreito de Kerch. Os acontecimentos dos anos seguintes na Crimeia e no Donbas dispensam explicações adicionais.Ao mesmo tempo, ao longo de todos estes anos difíceis, os ucranianos compreenderam uma coisa: apesar de todos os problemas internos e externos que o Estado enfrentou no seu processo de afirmação, vale a pena lutar pela Ucrânia. E os ucranianos defendem desesperadamente o seu país e a sua independência — primeiro no plano diplomático e, agora, também de armas na mão. Como resultado, hoje serão já poucas as pessoas no mundo que nunca ouviram falar da Ucrânia e dos ucranianos.
A segunda mudança fundamental ocorrida no meu país ao longo destas três décadas e meia é que a Ucrânia escolheu, de forma definitiva e irreversível, o caminho do desenvolvimento democrático, após décadas de totalitarismo soviético. De um modo geral, os ucranianos sempre tiveram, pela sua própria mentalidade, uma forte predisposição para a democracia, nomeadamente graças às sólidas tradições históricas de autogoverno. Não é por acaso que, no centro de Kyiv, existe um monumento ao Direito de Magdeburgo — as primeiras cidades ucranianas começaram a reger-se por este sistema ainda no século XIV, algo que nunca existiu na rússia. Nos genes dos ucranianos não existe o culto de um monarca absoluto nem uma deferência incondicional perante o poder e os seus detentores. Perante problemas graves, os ucranianos saem para o “Maidan” — esta forma de democracia direta e o elevado nível de auto-organização são, para nós, absolutamente naturais e respeitados pelas autoridades. Os ucranianos possuem também uma longa experiência de resistência a regimes autoritários e de luta pela defesa da sua própria liberdade. Contudo, o caminho democrático da Ucrânia não ficou automaticamente determinado pelo Ato de Proclamação da Independência nem pelas condições históricas preexistentes. Basta observar atentamente o espaço pós-soviético de hoje para compreender quão complexo foi este processo.
A terceira mudança fundamental ocorrida no meu país, e que decorre logicamente da escolha democrática da Ucrânia, é o facto de os ucranianos terem definido claramente a integração na União Europeia como o seu rumo. Toda a história da Ucrânia desde a restauração da independência, bem como os seus acontecimentos mais marcantes, estiveram diretamente ligados à questão da escolha europeia dos ucranianos. Na verdade, um dia, a nossa história desde a restauração da Independência será escrita como a história da integração europeia da Ucrânia e do seu regresso à família europeia. A Revolução Laranja e a Revolução da Dignidade decorreram sob duas bandeiras — a ucraniana e a europeia — e foram diretamente desencadeadas por tentativas de travar a integração europeia. E, finalmente, a agressão armada da rússia contra a Ucrânia não é, definitivamente, uma guerra por territórios, razão pela qual quaisquer concessões territoriais não contribuirão para uma paz duradoura. A agressão armada da federação russa contra a Ucrânia é uma guerra existencial pelo direito do povo ucraniano à existência, à liberdade, ao seu próprio Estado e à sua escolha europeia. Mas esta guerra é também travada pela rússia para preservar a sua capacidade de determinar a segurança europeia e ditar as suas condições à Europa. A rússia pretende limitar drasticamente a soberania ucraniana e determinar a nossa política interna e externa. Mas pretende igualmente uma Europa dependente dos seus recursos energéticos, intimidada pelo seu exército e governada por aqueles que apoia — e não são forças políticas que tenham os valores europeus no seu ADN.
Vivemos no mundo mais incerto desde o fim da Segunda Guerra Mundial, no qual a Europa, juntamente com os seus parceiros tradicionais, tem de contar cada vez mais consigo mesma— e isso significa também contar com a Ucrânia enquanto parte da Europa. A capacidade de inovação dos setores ucranianos das tecnologias de informação e da indústria de defesa, a força e a extraordinária capacidade de adaptação das suas Forças Armadas, bem como os êxitos na condução de uma guerra assimétrica — tudo isto pode e deve contribuir para a nossa segurança europeia comum. Os parceiros internacionais da Ucrânia — tanto do outro lado do Atlântico como na Europa, incluindo Portugal — prestaram ao nosso país uma ajuda tão importante na sua luta contra a agressão russa. Milhares de ucranianos encontraram aqui refúgio, algo que valorizamos profundamente. Agora, a Ucrânia deve tornar-se membro de pleno direito da União Europeia, e os nossos parceiros europeus poderão, da mesma forma, contar connosco em todas as áreas, incluindo na segurança. Pois, como afirmou certa vez, Konrad Adenauer: «Uma Europa unida foi o sonho de poucos. Tornou-se a esperança de muitos. Hoje, é uma necessidade para todos nós.»