No âmbito das iniciativas que assinalaram o quarto aniversário da invasão em grande escala, no dia 24 de fevereiro, nas instalações da Nova School of Business and Economics, realizou-se a conferência internacional “Bring Kids Back UA: Bringing Ukrainian Children Home”, organizada pelas Embaixadas da Ucrânia e do Canadá em Portugal, em parceria com a Agência Nacional Erasmus+ Juventude/Desporto e Corpo Europeu de Solidariedade e com o apoio da Nova School of Business and Economics.
O evento reuniu representantes do corpo diplomático, autoridades públicas portuguesas, organizações internacionais, especialistas em direito internacional humanitário, juristas, investigadores, docentes e estudantes. A conferência tornou-se uma plataforma para um debate aprofundado e profissional sobre o problema da deportação ilegal e da deslocação forçada de crianças ucranianas, os mecanismos de documentação destes crimes e a coordenação de esforços internacionais para o seu regresso a casa.
Os participantes da conferência foram recebidos pela exposição fotográfica Lost Childhood, dedicada às crianças ucranianas que conseguiram regressar a casa após a sua deportação ilegal e detenção forçada na Rússia. Nas fotografias do fotógrafo ucraniano Roman Pashkovskyi não se veem apenas retratos, mas emoções profundas e olhares infantis nos quais se refletem uma maturidade precoce, a dor vivida e a despreocupação perdida.
A sessão de abertura contou com intervenções do Reitor da Nova SBE, Pedro Oliveira, da Embaixadora da Ucrânia em Portugal, Maryna Mykhailenko, da Vice-Presidente da Assembleia da República, Teresa Morais, e da Embaixadora do Canadá em Portugal, Élise Racicot. Dirigiram-se igualmente aos participantes, em formato de vídeo, a Primeira-Dama da Ucrânia, Olena Zelenska, e o Secretário Parlamentar do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Canadá, Rob Oliphant.
Na sua intervenção, a Primeira-Dama da Ucrânia chamou a atenção para o que há de mais precioso: «Uma criança desaparecida é, provavelmente, o pior pesadelo de qualquer mãe. Não saber se o teu filho está em segurança — essa incerteza assusta. É também o medo de quase qualquer criança — estar perdida, não saber quando voltará a ver a mãe ou alguém próximo, não ter por perto pessoas em quem confia. Para quase 20 mil jovens ucranianos raptados pela Rússia, esta retirada da sua pátria não é apenas uma mudança de local de residência. Para eles, é quase sempre isolamento, pressão e tentativas sistemáticas de influenciar a sua identidade e visão do mundo.»
Por sua vez, a Embaixadora da Ucrânia, Maryna Mykhailenko, sublinhou a necessidade de continuar a reforçar os esforços internacionais para trazer as crianças ucranianas de volta a casa: «Hoje, todas as crianças ucranianas são crianças da guerra. Morrem sob bombardeamentos diários. A sua deportação forçada para a Rússia, a chamada “reeducação” e a russificação tornaram-se um dos capítulos mais trágicos desta guerra. Trata-se de uma política deliberada de genocídio contra as crianças ucranianas — um crime que não prescreve. Assim, a ideia central do evento de hoje é chamar a atenção dos nossos amigos portugueses e parceiros internacionais para esta situação trágica das crianças ucranianas.»
A conferência prosseguiu com o painel de discussão “Infância Roubada: o que aconteceu e por que razão o mundo deve reagir?”, moderado pela conhecida jornalista portuguesa da RTP, Rebeca Abecasis, com a participação da Conselheira do Presidente da Ucrânia para os Direitos da Criança, Daria Herasymchuk, e da especialista canadiana da iniciativa “Bring Kids Back UA”, Sharanjeet Parmar.
Entre os principais temas debatidos estiveram: a dimensão das deportações e deslocações forçadas de crianças ucranianas; a qualificação jurídica destes atos no contexto do direito internacional humanitário; os mecanismos de documentação dos crimes; o papel das instituições internacionais na garantia de responsabilização; a coordenação de esforços internacionais para o regresso das crianças; bem como a reintegração psicológica e social dos menores repatriados.
Daria Herasymchuk apresentou uma análise detalhada da situação relativa ao regresso das crianças ucranianas, ilustrando-a com exemplos concretos. As especialistas sublinharam que a deslocação forçada de crianças durante um conflito armado constitui uma grave violação do direito internacional e pode ser qualificada como crime de guerra.
Foi igualmente destacada a importância da coordenação entre Estados e parceiros internacionais no âmbito da iniciativa Bring Kids Back UA e da Coligação Internacional para o Regresso das Crianças Ucranianas, bem como a necessidade de reforçar a pressão diplomática, jurídica e sancionatória para assegurar o regresso de cada criança ilegalmente deslocada.
Sublinhou-se que o problema não tem apenas uma dimensão jurídica, mas também um profundo caráter humanitário: as crianças encontram-se em estado de trauma psicológico; há tentativas de alterar a sua identidade nacional; as famílias passam anos sem qualquer informação sobre o paradeiro dos seus filhos; e o regresso exige programas de reabilitação e adaptação social a longo prazo.
Os participantes concluíram que a deportação de crianças ucranianas tem caráter sistemático e requer atenção internacional constante, sendo necessário que o direito internacional seja acompanhado por mecanismos práticos de responsabilização. O regresso de cada criança não é apenas uma tarefa humanitária, mas também uma questão de restabelecimento da justiça e de proteção dos valores fundamentais.
A segunda parte da conferência foi dedicada a histórias reais de crianças que conseguiram regressar à Ucrânia. Não foram apenas intervenções — foram testemunhos sinceros e profundamente comoventes que não deixaram ninguém indiferente.
Crianças ucranianas partilharam as suas histórias difíceis, mas marcadas por uma força extraordinária. Falaram sobre a separação das suas famílias, o medo e a incerteza, a luta interior e a esperança que os ajudou a resistir nos momentos mais difíceis. Nas suas palavras ecoavam dor e uma maturidade precoce, mas também fé, coragem e amor pela Ucrânia.
Após as intervenções, os participantes tiveram a oportunidade de colocar perguntas e conversar pessoalmente com estes jovens ucranianos. Foram momentos de diálogo sincero e caloroso — palavras de apoio, gratidão e admiração pela sua resiliência. Estes testemunhos vivos recordam ao mundo que, por detrás das estatísticas, existem destinos, sonhos e o futuro de crianças concretas.
A Embaixada da Ucrânia na República Portuguesa agradece a todos os que contribuíram para a organização e realização da conferência. Um agradecimento especial aos nossos coorganizadores e parceiros: Bring Kids Back UA, Embaixada do Canadá em Portugal, Agência Nacional Erasmus+ Juventude/Desporto e Corpo Europeu de Solidariedade e Nova SBE.