Discurso do Presidente da Ucrânia Volodymyr Zelenskyy na Cimeira da NATO.
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Caros participantes!
Cumprimento-vos a partir de Kyiv, a nossa capital, que luta há já um mês, tal como todo o nosso Estado.
Sim, é verdade que não estamos na Aliança.
Não pertencemos à organização de defesa mais poderosa do mundo. Não somos um dos 30 estados sob a égide da proteção conjunta. Abrigados pelo artigo 5.º de defesa mútua.
Sentimos que estamos numa espécie de área cinzenta. Entre o Ocidente e a Rússia. Mas protegemos todos os nossos valores comuns convosco. E nós somos pessoas brilhantes! Há um mês que estamos a defender todos esses valores!
Um mês de resistência heróica.
Um mês do sofrimento mais sombrio.
Um mês de destruição impune de um Estado pacífico e, com ele, de toda a arquitetura de segurança global.
E tudo isto está aos olhos do mundo inteiro.
Ao longo de décadas, a Rússia acumulou recursos consideráveis. Recursos militares.
Mão de obra e tecnologia. Bombas aéreas, mísseis.
Eles investiram quantias absurdas de dinheiro na morte, enquanto o resto do mundo investia na vida.
Mas a Ucrânia está a resistir de forma valente!
À custa de milhares de vidas. À custa de cidades destruídas. À custa de quase dez milhões de migrantes. Três milhões e meio já estão nos vossos territórios. Nos territórios dos países da NATO. Sou grato pelo apoio a essas pessoas. Ao nosso povo.
Mas as pessoas continuam, infelizmente, a ter de deixar as suas casas. Procuram salvar-se do terror que os ocupantes trouxeram com eles.
Logo as primeiras horas da invasão significaram ataques brutais com mísseis contra nós. Durante um mês da guerra, a Rússia disparou mais de mil mísseis diferentes contra as nossas cidades. Fez centenas de ataques aéreos.
Ainda a 24 de fevereiro, dirigi-me a vocês com um pedido perfeitamente claro e lógico. Ajudem a encerrar o espaço aéreo. Em qualquer formato. Protejam o nosso povo das bombas e dos mísseis russos.
Não ouvimos uma resposta clara.
A Ucrânia não possui armas antimísseis poderosas.
Tem aeronaves muito menores do que a Rússia.
Portanto, a vantagem deles sobre o espaço aéreo é proporcional ao uso de armas de destruição massiva.
E vocês vêm as consequências hoje - quantas pessoas foram mortas, quantas cidades pacíficas foram destruídas.
O exército ucraniano está há um mês a resistir sob condições desiguais! E eu tenho repetido a mesma coisa há já um mês.
Para salvar as pessoas e nossas cidades, a Ucrânia precisa de assistência militar - sem restrições. Tal como a Rússia, também sem restrições, está a usar todo o seu arsenal contra nós.
Destrói todos os seres vivos. Quaisquer objetos - desde casas a igrejas, desde armazéns a alimentos, universidades, desde pontes a hospitais.
A Ucrânia recorreu a vós para que nos providenciem aviões. Para não perdermos tantas pessoas.
E vocês têm milhares de caças! Mas ainda não recebemos nenhum.
Nós pedimos tanques. Para que possamos desbloquear as nossas cidades. Acorrer àqueles que estão a morrer agora - Mariupol, Berdyansk, Melitopol, entre outras. Cidades onde a Rússia mantém centenas de milhares de reféns e provoca deliberadamente a fome – lá não há água, não há comida, não há nada.
Vocês têm pelo menos 20.000 tanques!
A Ucrânia pediu uma parca percentagem. Um por cento dos vossos tanques! Dêm-nos ou vendam-nos.
Mas ainda não tivemos uma resposta clara...
O pior da guerra é não ter respostas claras aos pedidos de ajuda.
A Ucrânia nunca quis esta guerra.
A Ucrânia não quer lutar durante anos.
Só queremos salvar o nosso povo.
Queremos sobreviver! Apenas sobreviver!
Como qualquer nação, temos direito a isso. O direito à vida. O direito a este um por cento.
E não culpo a NATO, quero ser claro quanto a isso. Vocês não são os culpados. Não são os vossos mísseis, não são as vossas bombas que estão a destruir as nossas cidades.
Esta manhã, a propósito, houve bombas de fósforo. Bombas russas de fósforo. Novamente, foram mortos adultos, novamente, foram mortas crianças. Eu só quero saibam que: a Aliança ainda pode impedir a morte de ucranianos à mercê dos ataques russos, da ocupação russa. Dando-nos todas as armas de que precisamos.
Sim, não estamos na Aliança. E eu não faço tais afirmações.
Mas os ucranianos nunca pensaram que a Aliança ou os Aliados fossem diferentes.
Que, em questões de vida ou morte, separadamente, pudessem ser uma força, mas juntos - não. Que a NATO pudesse ter medo das ações da Rússia.
Tenho a certeza de que vocês já entenderam que a Rússia não pretende ficar-se pela Ucrânia. Não pensa e não vai. Ela quer ir mais longe.
Quer ir contra os membros orientais da NATO. Os países bálticos, Polónia - isso é certo. Nessa altura, a NATO vai parar para pensar nisso? Submetendo-se à questão de como a Rússia reagirá? Quem pode ter certeza disso? E vocês tem confiança de que o Artigo 5.º vai funcionar?
"Budapeste" não funcionou para nós. O nosso Memorando de Budapeste não funcionou para a paz na Ucrânia.
E vou dizer-vos honestamente - mesmo hoje, Budapeste não funciona pela paz na Ucrânia.
Sim, recebemos ajuda de membros individuais da Aliança. Estou muito agradecido por isso. Os ucranianos estão todos sinceramente gratos por isso. A cada um de vocês, que dá o que tem para nos apoiar.
Mas então e a Aliança?
A questão do artigo 5.º é fundamental.
Eu só quero que saibam o que pensamos sobre isso.
E eu sinceramente desejo que estejamos errados. Nas nossas estimativas. Nas nossas dúvidas.
E espero que assim seja – que vocês realmente tenham uma Aliança muito forte.
Porque se estivermos errados, o mundo está seguro.
Mas se não estivermos, se houver a possibilidade de estarmos, pelo menos, um por cento errados, peço que reconsiderem a vossa atitude.
As vossas próprias estimativas.
E cuidem realmente da segurança, da segurança na Europa e, consequentemente, no mundo.
Vocês podem dar-nos um por cento dos vossos aviões. Um por cento dos vossos tanques.
Um por cento!
Não podemos simplesmente comprar tal abastecimento, pois tal depende diretamente e apenas das decisões da NATO, mais precisamente, de decisões políticas.
Sistemas de tiro de voleio MLRS, armas anti-navio, meios de defesa aérea.
Ou será que é possível sobreviver a uma guerra destas sem isso?
E então, quando tudo acabar, isso dar-nos-á, tal como a vocês, cem por cento de segurança. Mas nós precisamos de um por cento.
É a única coisa que eu vos peço...
Depois de um mês de guerra. Este é um pedido para o bem dos nossos militares.
Depois de tamanha guerra contra a Rússia ...
Nunca mais, por favor, nunca mais nos digam que o nosso exército não atende aos padrões da NATO.
Mostrámos do que nossos padrões são capazes. E quanto podemos contribuir para a segurança comum na Europa e no mundo.
O quanto podemos fazer para nos proteger face a agressões contra tudo o que valorizamos – e que vocês valorizam.
Mas a NATO ainda não mostrou o que a Aliança pode fazer. Para salvar as pessoas.
Para mostrar que esta é realmente a organização de defesa mais poderosa do mundo.
E o mundo está à espera.
E a Ucrânia espera muito.
Aguardando ações reais.
Garantias reais de segurança. Daqueles cuja palavra é confiável. E cujas ações podem manter a paz.
Verdadeiramente.
Todas as ofertas estão na mesa. As nossas necessidades estão na mesa. Precisamos de paz imediatamente.
A resposta depende apenas de vocês.
Agradeço a todos os que nos ajudam! Obrigado!
Glória à Ucrânia!