O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy discursou na Assembleia da República em 21 de abril de 2022 e foi aplaudido de pé.
Foi a primeira vez que um chefe de Estado interveio por vídeoconferência no Parlamento português. No seu discurso de cerca de 15 minutos, Volodymyr Zelensky agradeceu o apoio português e pediu ajuda para travar a Rússia de destruir a democracia dos países do leste da Europa.
Zelenskyy falou do terror vivido no país, pediu o apoio português para a adesão à UE.
Presidente ucraniano diz na AR que Rússia age como "regime totalitário" e criou "inferno" em Mariupol, cidade "tão grande como Lisboa".
Zelensky citou Porto e Lisboa, comparou a vontade de liberdade do povo português em 1974 à do povo ucraniano em 2022 ("vocês sabem o que estamos a sentir"), pediu a Portugal armas e sanções e ajuda humanitária - e ainda apoio na adesão à UE.
Com uma t-shirt verde-tropa, como se tem apresentado desde o início da invasão russa, e com a bandeira da Ucrânia por trás, Volodymyr Zelensky começou o seu discurso pela parte que mais tem chocado o mundo: os corpos, com sinais de tortura, espalhados pelas estradas de várias cidades ucranianas. Decidiu especificar duas: Mariupol e Bucha. "Vocês viram as fotografias, mas elas não mostram tudo o que os cidadãos que viviam lá viram. Os ocupantes mataram pessoas só para se divertir".
Por isso, o presidente da Ucrânia disse que esta luta não é só "pela nossa independência" mas também "pela nossa sobrevivência". Zelensky disse que as tropas russas continuam a bombardear habitações, supermercados, escolas, universidades e igrejas.
Em Mariupol, "uma cidade tão grande como Lisboa", disse, "não existe uma única habituação inteira". Acusou a federação russa de crimes de guerra, afirmando que as tropas russas já capturaram e deportaram "mais de 500 mil ucranianos". "É duas vezes o tamanho da população da cidade do Porto. Os deportados não têm direito a estabelecer ligação com as famílias, eles estão a ser deportados para as regiões mais longínquas da Rússia", onde "fizeram campos especiais para que essas pessoas fossem divididas, alguns são mortos, as raparigas são violadas". Mais: milhões de ucranianos fugiram do país, são muitos mesmo, sublinhou Zelensky: "E imaginem se Portugal todo abandonasse o país".
Numa mensagem ao povo e ao Governo português, Zelensky pediu "coisas simples": mais apoio militar, mais sanções e toda a ajuda humanitária possível. "Senhoras e senhores, povo português, nós pedimos coisas simples. Nós pedimos armamento para nos podermos defender de forma forte - a aceleração e reforço das sanções e também apoio militar".
O presidente da Ucrânia pediu às empresas portugueses que trabalham na Rússia que deixem de o fazer - porque isso é uma forma de "combater o país agressor" - e comparou as revoluções ucranianas ao 25 de Abril e a guerra agora vivida ao período de ditadura no Estado Novo.
"Nós tivemos duas revoluções, em 2004 e em 2014, duas revoluções que conseguiram parar o alastrar da ditadura na Ucrânia. O vosso povo, que daqui a nada vai celebrar o aniversário da Revolução dos Cravos, que também vos libertou da ditadura, vocês sabem perfeitamente o que nós estamos a sentir. Vocês sabem o que traz a morte e a ditadura para a Ucrânia."
Alertou ainda que depois da Ucrânia a Rússia vai tentar fazer o mesmo na Moldava, na Geórgia e nos Países Bálticos. Zelensky pediu ainda o apoio de Portugal na candidatura da Ucrânia como membro da União Europeia: "Que sejamos livres". "Eu peço-vos mais uma vez: por favor apoiem-nos nesse caminho. Vocês estão no caminho mais oeste e nós estamos na parte mais leste, contudo as nossas visões são iguais e nós sabemos as regras que existem na Europa."
"Glória à Ucrânia" foram as últimas palavras proferidas. O presidente ucraniano falou durante cerca de 15 minutos e foi aplaudido de pé por deputados e convidados durante 60 segundos. António Costa decidiu seguir à risca as regras que se praticam no Parlamento nesta intervenção do presidente Zelensky e por isso nem ele nem os membros do seu Governo bateram palmas no fim do discurso. Segundo adiantaram várias fontes à CNN Portugal, há uma regra, de tradição longa, em que, tendo em conta a separação de poderes legislativo e executivo, define que este último nunca se deve manifestar ou bater palmas dentro do hemiciclo.
A marcar a sessão solene ficou também o discursou do presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, que salientou a “unidade nacional” contra a agressão russa e garantiu que Portugal nunca obstaculiza como preza as aspirações europeias de Kiev.
“Prezamos as aspirações europeias da Ucrânia e temos defendido, não só o reforço da cooperação no quadro do Acordo de Associação existente, como o exame pronto e atento, por parte das instituições europeias, do pedido de candidatura apresentado pela Ucrânia”, frisou o presidente da Assembleia da República, transmitindo ainda a Zelensky uma mensagem: “a luta do seu país pela liberdade é a luta da Europa toda pela liberdade”.
“E a essa luta pela liberdade o Portugal democrático nunca faltou, não falta e não faltará“, concluiu, numa intervenção aplaudida de pé por deputados de várias bancadas e antes de serem tocados os hinos da Ucrânia e nacional.
Presidente da República agradece ao Presidente Zelensky
O Presidente da República deixou há instantes um agradecimento ao homólogo ucraniano pela intervenção na Assembleia da República e (…)” na sua pessoa, ao martirizado Povo Ucraniano o exemplo que tem dado ao mundo, há quase dois meses de guerra”.
“Agradece a coragem, a resistência, o sentido de afirmação de independência, de soberania, de unidade nacional. Agradece a militares e, de modo especial, a civis, devastados pelos horrores da guerra e obrigados a abandonar a sua Pátria”, lê-se numa nota publicada no site da Presidência.
https://sicnoticias.pt/mundo/conflito-russia-ucrania/zelensky-discursa-hoje-no-parlamento-portugues/