A ocupação da Crimeia pela Rússia mudou dramaticamente a vida de Ruslan Suleymanov. Físico de formação e programador numa empresa de informática, requalificou-se como jornalista cidadão para contar ao mundo a verdade sobre a repressão na península da Crimeia. As atividades de Ruslan não puderam passar despercebidas pelos ocupantes e, em março de 2019, ele e outros ativistas foram presos sob acusações forjadas de terrorismo. No verão do ano passado, Ruslan sofreu outra tragédia – o seu filho Mussa, de três anos, faleceu. Os ocupantes não lhe deram a oportunidade de enterrar o filho e nem sequer de visitar o seu túmulo.
Leia na íntegra a carta de Ruslan e saiba mais sobre a sua história, sobre a motivação para o ativismo, sobre a repressão na península e sobre o paralelo com 1944.
"Eu, Ruslan Serverovich Suleymanov, nasci a 21 de abril de 1983, na cidade de Kokand, na RSS do Uzbaquistão, para onde a minha família tinha sido deportada. Lá entrei para a primeira classe na Escola Básica e Secundária №2. Quando terminei a quarta classe, em 1993, eu e a minha família voltámos para a Crimeia, para o distrito de Belogorsky, aldeia de Sinne (Tanageldi), onde comecei a frequentar o quinto ano, na escola Muromska.
Durante esses anos, a vida nas aldeias era financeiramente difícil. Percebendo as dificuldades dos meus pais, estabeleci a mim próprio uma meta: estudar. Depois de terminar a escola com uma medalha de ouro, no ano 2000, e devido à minha paixão pelas ciências exatas, nesse mesmo ano ingressei na Universidade Nacional Vernadsky Taurida, na Faculdade de Física. No final do segundo ano, por iniciativa própria, estabeleci-me no laboratório de física dos fenómenos magnéticos, no qual posteriormente me especializei. O meu trabalho de curso foi desenvolvido no centro biotécnico da universidade, onde trabalhei a questão das medidas físicas em ambientes biologicamente ativos.
A partir do terceiro ano, paralelamente aos estudos, passei a trabalhar oficialmente no Instituto Ecológico Taurida como físico do laboratório de ecologia. Em 2004, casei-me e, em 2006, nasceu o meu filho Ali. Infelizmente, o casamento acabou ao fim de algum tempo. Em 2005, terminei a universidade com uma nota média de 4,75, recebendo um diploma de especialista.
No final dos meus estudos na universidade, eu e os meus amigos Ramsey e Osman, que, tal como eu, também estão envolvidos num processo criminal, conseguimos lotes na aldeia de Stroganovtsi, distrito de Simferopol, onde nos tornámos vizinhos. Juntamente com o meu irmão Eskender (também envolvido num caso criminal), construímos uma casa.
Em 2009, casei-me com minha atual esposa, com quem tive três filhos: o meu filho Muhammad, nascido em 2009, a minha filha Asiyat, nascida em 2014, e o meu filho, Mussa, nascido em 2017. Infelizmente, perdi o meu filho mais novo quando estava no centro de detenção provisória e, desde que fui levado, nunca mais o pude abraçar. Não me deram sequer a oportunidade de ir enterrá-lo nem de visitar o seu túmulo antes de me deportarem, onde continuo até agora.
Quando me formei na universidade, tentei várias profissões para proporcionar uma renda decente para a minha família. Em 2010, consegui um emprego numa empresa que produz aplicativos para dispositivos móveis. Lá trabalhei como “level-designer” (programador). Mas depois dos acontecimentos de 2014, a empresa, a exemplo da ameaça de sanções, como todas as empresas de TI, encerrou os trabalhos, o que me obrigou a perder o meu emprego. Restava então tornar-me autónomo, pois a nova situação económica e política da península não deixava muitas opções. Então trabalhei como explicador de física, preparando alunos para os exames.
Mas eis que as repressões começaram por razões políticas. Isso não me podia deixar indiferente. A minha formação e consciência não me permitiram ser indiferente aos problemas que se abateram sobre meu povo.
Uma vida agitada começou. Fui movido pela necessidade de estar presente no local das buscas e de divulgar esses acontecimentos – era a única forma de me proteger contra a ilegalidade. Durante meu ativismo, estive duas vezes envolvido em artigos administrativos: a primeira vez, devido à minha presença num local de busca, e a segunda vez, por participar num piquete. Como resultado, tornei-me participante do caso Simferopol 25 e, desde 27 de março de 2019, tenho sido mantido num centro de prisão preventiva.
Somos um povo que professa o Islão e a nossa cultura está intimamente ligada a ele. Terrorismo e extremismo são conceitos que nos são estranhos. O meu povo é criador, então esses rótulos falsos não se aplicam a nós de forma alguma. Isso é bem conhecido daqueles que nos perseguem e os outros estão também cientes disso, porque o nosso modo de vida é aberto e claro.
O que está a acontecer hoje não é novo na história do meu povo. Algo semelhante aconteceu em 1944, quando, do mesmo modo, nos atribuíram os rótulos de apenas "traidores" e toda a nação foi submetida a uma deportação desumana. Não só ainda não tivemos tempo de nos restabelecer depois de voltarmos à Crimeia, como ainda sofremos: perseguição, pressão, repressão. Não conhecemos a paz. Sou bisneto e neto de deportados, filho dos que nasceram na deportação, nasci na deportação e hoje estou de novo a viver na deportação. Por mais paradoxal que possa parecer, essa é a realidade.
Eu espero sinceramente que todas estas repressões terminem em breve, que todos os filhos voltem para os seus pais, os pais para os seus filhos e os maridos para as suas esposas.
Acredito que chegará o dia em que o meu povo recuperará a paz na sua terra natal, professará com segurança a sua religião, preservará a sua cultura e dará ao mundo grandes cientistas para o benefício da humanidade. Acredito que a justiça certamente prevalecerá."