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#Inquebráveis: o projeto do MNE em apoio aos prisioneiros do Kremlin. Carta de Emil Ziyadinov
24 junho 2021 19:45

Emil Ziyadinov é técnico desportivo e eletricista de formação, antes da sua detenção, participava ativamente da vida pública do povo tártaro da Crimeia. Dava apoio a prisioneiros políticos e às suas famílias, viajou para locais de buscas e tribunais e realizou individualmente piquetes e flash mobs. Em julho de 2020, Emil e seis outros ativistas foram presos pelos ocupantes russos sob acusações forjadas de terrorismo. Estão detidos ilegalmente há quase um ano. A esposa de Emil e os seus quatro filhos aguardam o seu regresso a casa.

Carta de Emil Ziyadinov

“Em nome de Alá, o Beneficente e Misericordioso,

que a paz e a bênção estejam com o Profeta Maomé,

a sua família e seus aliados

Gostaria de vos contar um pouco sobre como era a minha vida antes de homens com máscara terem invadido a minha casa, às 4h da manhã.

Depois da deportação do povo tártaro da Crimeia para o Uzbequistão, Tajiquistão e outros países da ex-URSS, o meu povo sempre tentou regressar à sua terra natal. Assim, a minha família (o meu pai, a minha mãe, eu e dois irmãos) mudou-se para a Crimeia em 1993. Eu tinha oito anos, portanto, podemos dizer que toda a minha vida consciente foi passada na Crimeia.

Do Uzbequistão fomos para a aldeia de Zhovtneve, onde, até então, moram os meus pais e o resto da família.

A minha vida era normal e em nada se distinguia da vida dos outros meninos. Mas quando andava no 10º ano (1999-2000), comecei a interessar-me pela religião e a fazer as cinco orações diárias. Depois disso, minha vida começou a mudar lentamente.

Mais tarde, os meus irmãos e, depois, os meus pais começaram também a praticar a oração. Muitos familiares, amigos, conhecidos e colegas da escola começaram a professar o Islão. Alhamdulillah – louvado seja Deus, o meu povo começou lentamente a regressar às suas origens e cultura. 

Eu estudei e formei-me na Universidade Nacional Táurica Vernadsky, em Simferopol, com especialização em "educação física".

Até 2014, realizávamos festejos abertos para crianças e adultos no Ramadão e no Eid al-Adha, realizávamos comícios em apoio aos muçulmanos e em defesa do Mensageiro de Alá (Alá o abençoe e o saúde) e fizemos o nosso melhor para trazer o povo tártaro da Crimeia de volta ao Islão e para que os outros povos o vissem como uma religião justa, que nada tem que ver com extremismo, terrorismo ou fanatismo religioso.

Depois de 2014, continuámos a nossa luta pacífica, mas já era de uma natureza diferente, isto porque depois da anexação houve uma forte pressão e tentativas de quebrar a vontade do povo tártaro da Crimeia. Os sequestros e torturas começaram e, em 2015, começaram a prender-nos sob a acusação de extremismo e terrorismo. E tudo isto porque as pessoas que professam o Islão pertencem a uma camada ativa e atenta do nosso povo.

Agora íamos mais aos locais de buscas, de detenção, visitávamos tribunais, apoiávamos e ajudávamos famílias de presos políticos, fizemos transmissões informativas, greves e flash mobs, razão pela qual muitos de nós fomos multados.

O primeiro sinal de que em breve seria preso foi o incidente ocorrido durante a busca de Rustem Sheikhaliyev, participante do "segundo grupo de Simferopol", no âmbito do qual estão a ser julgadas 25 pessoas. Houve cerca de 30 buscas naquele dia, e cada uma contou com a presença de membros da comunidade. Eu vim para a busca a Rustem, onde fui detido por supostamente resistir às agências de aplicação da lei. Durante a detenção, fui espancado, algemado e colocado num furgão, abriram-me de tal modo as pernas que praticamente fazia a espargata. Então, um oficial encapuzado do FSB, que provavelmente era um dos principais, aproximou-se de mim e disse, a picar-me: "Ele tem de ser preso". Fui solto na mesma noite e multado.

Quando fomos a Moscovo para apoiar os irmãos do "primeiro grupo de Simferopol", depois de retornar da audiência ao apartamento, que foi alugado por um dia, reparámos que nos vigiavam. Provavelmente eram oficiais do FSB. A vigilância foi conduzida de forma aberta e descarada, quase sem a encobrirem.

Conforme descobri mais tarde, no meu caso, nessa época eu era bastante vigiado, as minhas conversas eram gravadas, inclusive as por telefone.

Quando fui detido, em 2020, tinha quatro filhos menores em casa (o meu filho mais velho tinha 9 anos, o segundo tinha 6, o terceiro tinha 4 anos e o mais novo tinha 2 anos) – a minha esposa estava grávida pela quinta vez, de uma menina, por quem tanto esperámos. Mas, pela Vontade do Todo-Poderoso, o feto morreu poucos dias antes do nascimento. Dei nomes islâmicos aos meus filhos e os criei-os desde o seu nascimento no espírito do Islão. Mas acontece que, na Rússia, um muçulmano comum que segue os princípios do Islão é um terrorista. Eu próprio não sabia que era um "terrorista" até 2020, no dia em que fui detido.

Eu espero que as pessoas não tenham medo nem se calem quando virem injustiças, espero que saiam e que se apoiem umas às outras sem se afastarem. Eu quero que meu povo continue a luta pacífica e que nunca incline as suas cabeças perante o ocupante, quero que o meu povo viva de acordo com as leis do Islão e saia da situação de opressão. Alá não abandona os Seus fiéis servos e é seu Auxiliante.

Respeitosamente,

O prisioneiro político Emil Ziyadinov”

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