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#Inquebráveis: o projeto do MNE em apoio aos prisioneiros do Kremlin. Carta de Osman Arifmemetov
21 maio 2021 19:49

O primeiro herói do projeto #Inquebráveis é o jornalista civil Osman Arifmemetov. Antes de sua detenção, ele transmitiu ao público as buscas e perseguições aos tártaros da Crimeia na Crimeia ocupada. Neste momento, sujeita-se a uma pena de até 20 anos de prisão por acusações forjadas de terrorismo.

Carta de Osman Arifmemetov.

Saudações a todos. Chamo-me Osman e sou um tártaro da Crimeia, cidadão da Ucrânia. Vivo na Crimeia desde 1990, altura em que regressei à minha terra natal com cinco anos de idade, voltei do Uzbequistão, lugar para onde os meus antepassados, assim como todo o povo tártaro da Crimeia, foram deportados, em 1944.

Formei-me como professor de matemática e informática. Até 2014, trabalhei como programador, contudo, devido à difícil situação política, a empresa foi forçada a deixar a Crimeia. Depois disso, fui ganhando a vida dando aulas particulares – dava aulas de programação para crianças. A minha querida esposa criou os nossos dois filhos pequenos.

Como é sabido, desde 2014, a situação na Crimeia mudou. A maioria do povo tártaro da Crimeia não apoiou a invasão da península pela Rússia, não participou do referendo de 16 de março de 2014, na eleição presidencial de 2018, e boicotou a votação das emendas à Constituição, em 2020. Por esta razão, todo o povo ficou submetido à repressão política – por causa da sua posição política e da sua visão própria de qual deveria ser o caminho de desenvolvimento da sua pátria. Por sua vez, a Rússia adquiriu a imagem de agressor na arena internacional e o povo tártaro da Crimeia estabeleceu-se como um parceiro civilizado.

Desde 2016, a minha principal atividade tem sido o jornalismo cidadão. O facto é que o jornalismo profissional na Crimeia desapareceu como um relâmpago. Algumas redações e jornalistas foram forçados a sair para a parte continental da Ucrânia. Os jornalistas profissionais que permaneceram na península simplesmente deixaram a sua profissão porque não podiam trabalhar sob pressão e censura. Restou apenas a comunicação social federal pró-governo de ocupação, que trabalha como propagandista e não transmite a imagem objetiva do que realmente está a acontecer.

Na verdade, a Crimeia tornou-se num gueto de informações, onde o trabalho da imprensa profissional é muito complexo e perigoso. No entanto, o pedido de informação ainda existe e alguém tem de falar sobre a repressão e perseguição. Nessas condições, surgiu o jornalismo civil ou jornalismo cidadão. Pessoas que nunca se tinham envolvido na comunicação social pegaram em telefones, tablets e começaram a filmar e a partilhar na internet tudo que estava a acontecer na península. Muito rapidamente, eles tornaram-se praticamente a única fonte de informações autênticas da Crimeia ocupada.

Em 2017, consegui registar com o meu smartphone o momento em que agentes do FSB sequestraram o ativista Bilyal Adilov. Numa questão de dias, dezenas de milhares de pessoas assistiram ao vídeo do sequestro na internet. Durante uma das filmagens das invasões regulares à casa de compatriotas, fui detido e preso por cinco dias. O tablet com que eu estava a filmar foi-me retirado e enviado para análise. Juntamente com o jornalista Timur Ibragimov e o ativista dos direitos humanos Riza Izetov, tive de ficar na cave do Centro de Combate ao Extremismo.

Em março de 2019, decorreram as mais massivas detenções de activistas, de defensores dos direitos humanos e de jornalistas da associação pública “Solidariedade da Crimeia”. 25 pessoas foram presas, incluindo eu. Naquela altura, o meu filho tinha um ano e meio e a minha filha três anos e meio.

Quando fui detido, fui levado para a floresta, onde fui espancado até perder a consciência.

Podemos apanhar até 20 anos de prisão e quatro de nós – a prisão perpétua. Encaramos a nossa detenção como sendo motivada politicamente e opomo-nos às acusações que nos foram dirigidas. Não nos declaramos culpados nem, muito menos, terroristas, coisa que consideramos inaceitável. Ao longo da história de luta pelos seus direitos, o povo tártaro da Crimeia não recorreu à violência. Prova disso é a história do movimento nacional nos lugares de exílio. Nunca houve ataques terroristas nem terroristas na Crimeia durante 30 anos. O islamismo e o terrorismo não têm nada em comum. O Islão é contra o terrorismo.

Eu não nutro ilusões. Entendo que não vale a pena contar com a justiça nos tribunais russos. A questão da nossa libertação é do foro político.

É importante que todos saibam que continuaremos a lutar de forma não violenta pelos nossos direitos. Não somos terroristas.

É importante que vocês conheçam aqueles que continuam a ter um papel ativo na Crimeia. Eles precisam do vosso apoio.

Eu creio que, com a vossa ajuda, seremos capazes de parar a repressão na Crimeia e de libertar todos os prisioneiros políticos do Kremlin.

Eu luto pela prosperidade da nossa sociedade, pela justiça.

Sonho em voltar para minha família, abraçar toda a família e amigos.

Sonho com uma Crimeia livre, com o fim da repressão, e com o momento em que, juntos, podemos mudar o nosso futuro comum para melhor.


Respeitosamente,

Jornalista cidadão, Prisioneiro de consciência

Osman Arifmemetov

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