O segundo herói do projeto #Inquebráveis é o jornalista freelancer do “Krym.Realii”, Vladyslav Yesypenko. Antes de ser preso, fez a cobertura de diversas questões sociais e ambientais e filmou um inquérito aos cidadãos da Crimeia. A 10 de março deste ano, Yesypenko foi ilegalmente detido em Simferopol. A administração da ocupação russa acusa o jornalista de recolher informações "no interesse dos serviços secretos da Ucrânia" e de armazenar um "dispositivo explosivo improvisado" no carro. Por que é que essa acusação é uma mentira: leia a carta de Vladyslav, escrita para o"Krym.Realii".
Os trechos de carta de Vladyslav Yesypenko.
Nem sempre tenho a oportunidade de enviar cartas a partir do centro de detenção preventiva de Simferopol, onde estou agora. Às vezes, elas chegam tarde demais – outras vezes, simplesmente não chegam ao destino. Em muitas ocasiões não tenho tempo de terminar o texto e entrego-o tal como está.
Eu escrevo como consigo. Folhinhas, pedaços de papel. Ferramentas práticas e o conteúdo é o mesmo... cela, grades, ferrolhos. Uma verdadeira reconstrução dos acontecimentos ... Sou neto de Afanasii Fursa, que foi reprimido e fuzilado pela "troika" em Chernihiv, a 9 de maio de 1938, e aqui estou eu agora, 84 anos depois, no mesmo cenário, só que na Crimeia. Estou à espera do veredito do regime totalitário, exatamente como o meu avô, o "inimigo do povo", pai de cinco filhos esperou. Eu tenho, contudo, 52 anos, ele era dez anos mais novo ...
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Tudo aconteceu um dia depois de ter filmado a colocação de flores no monumento a Taras Shevchenko. No dia 10 de março, eu viajava da costa sul para Simferopol. Depois de passar a aldeia de Perevalne, fui mandado parar por um polícia de trânsito. Em seguida, aproximaram-se gentes do FSB (Serviço Federal de Segurança Russo), colocaram-me no chão e começaram a vasculhar o carro. Eu fiquei indignado. Disse que o FSB estava a agir "de forma estranha" e que ficariam manchados… Mas quando os vi lançarem uma granada para o salão do carro, percebi que a afinal a mancha parecia ter começado em mim e que podia, obviamente, arrastar-se.
Quiseram forçar-me a assinar relatórios de busca. Recusei-me, ao que o agente do FSB usando uma balaclava (aparentemente um veterano) disse que então iríamos para um outro local, onde eu assinaria tudo o que ele dissesse: "Já quebrámos ossos mais duros de roer."
Fui colocado numa carrinha, puseram-me óculos escuros e fones de ouvido (não conseguia ver nada, não conseguia ouvir nada). Em completa invisibilidade, fui levado na carrinha durante cerca de uma hora. A certa altura, consegui levantar os óculos e vi uma placa na estrada: "Sevastopol - 46 km." Eles pararam dez minutos depois. Percebi que havíamos chegado a Bakhchisarai. Levaram-me para a cave de um prédio e em silêncio começaram a despir-me.
Eu resisti. Mas como eram quatro e eu estava algemado, não adiantou. Mandaram-me ao chão, colocaram-me cabos de arame nos ouvidos e ligaram a electricidade. A dor era insuportável. Ninguém ligava aos meus gritos. Os rapazes trabalhavam em sintonia e sem emoções.
Nas pausas entre as torturas, iam-me perguntando: "Qual o propósito de vir para a Crimeia?", "Sabemos que é jornalista, mas conte-nos sobre as tarefas dos serviços secretos da Ucrânia", "Quando foi recrutado? ", "O quê e onde é que filmou na Crimeia?", "O que é que sabe sobre o Coronel Kravchuk?". Também me disseram que eu tinha experiência em despistar perseguições, pois travava e acelerava muitas vezes enquanto conduzia. Ou seja, a "capacidade de evitar ser seguido" sugeria a minha natureza de espionagem.
“- Vinha a conduzir com o apoio do sistema de navegação!” - Respondi. “- E, claro, acelerava e abrandava conforme ia vendo radares pelo sistema.” Se a resposta a qualquer uma das perguntas não fosse adequada, eles colocavam os fios novamente e ligavam a eletricidade. A certa altura, percebi que a dor podia ser tolerada e à medida que o meu choro ia diminuindo, os agentes do FSB, aparentemente profissionais, avaliavam a situação e aumentavam a corrente até a dor voltar a ser insuportável.
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A língua estalou e começou a sangrar. Talvez por causa das descargas de corrente, ou talvez porque eu a mordesse com força durante os gritos. Quando comecei a cuspir sangue, os policiais do FSB "cuidadosamente" trouxeram água e até me levaram à casa de banho.
Um dos "bons" agentes do FSB, perguntando sobre quanto ganho com minhas histórias, disse-me que "na Rússia receberia dez vezes mais". Adiante, este "bom" agente disse que eu não tinha sido "muito sincero" com eles, por isso iria ter de fazer “prancha” e caso ficasse cansado e parasse, eles iam pontapear-me. Cansei-me rapidamente, então atingiram-me na virilha e no resto do corpo.
Ainda este "bom" agente, durante as incursões, exigiu que eu gritasse "Glória à Ucrânia!". Em resposta, gritei "A sério, meu, Glória dos heróis!" (Usei a gíria da prisão para tornar isso mais claro para eles). Seguiu-se outro interrogatório, e o “bom” agente disse que eu podia escolher o método de tortura: corrente ou pontapés. Eu escolhi a “prancha”, mas fui novamente eletrocutado, só que desta vez preso a uma cadeira.
Durante uma das fortes descargas de dor, pulei e arranquei a fita que me amarrava, arranquei a máscara preta do rosto e vi que estava numa cave sem janelas. Lá estavam também cinco agentes do FSB usando balaclavas. Vi o objecto com que fui torturado. Tratava-se de um dispositivo semelhante a um telefone de campanha do exército. Fui derrubado e preso novamente à cadeira, e o interrogatório continuou. Depois de algum tempo, uma mulher (aparentemente também agente do FSB) desceu à cave e, colocando sensores nos meus dedos, começou a analisar com um detector de mentiras. As mesmas perguntas foram-me feitas novamente. Após a análise do polígrafo na cave, assinei alguns papéis, disse à frente da câmara que era um "espião" e que estava a trabalhar para o SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia).
Foi um inferno, um sufoco. A sensação do absurdo do que estava a acontecer. Devo dizer que, nos momentos mais críticos, eu cheguei a brincar com a situação. Como se pudesse brincar no inferno. Detido na cave, disse aos agentes do FSB que com tanta carga não era preciso ir para o ginásio. Depois disso, eles pontapearam-me ainda com mais força, dizendo que eu estava a gozar com eles...
No dia seguinte (e como eu estava feliz que o dia seguinte tivesse chegado), fui levado a um lugar perto de Armyansk, onde me mostraram o sítio onde supostamente estava uma granada, que eu alegadamente teria levado para "defesa contra os tártaros da Crimeia". E quando o investigador chegou, ele mostrou o esconderijo numa câmara de vídeo.
Ainda não consigo entender por que os agentes do FSB escolheram uma granada em vez de uma pistola para "autodefesa contra os tártaros". Ou seja, se os "agressivos tártaros da Crimeia" cruzassem o meu caminho, eu teria de explodi-los comigo, contra o instinto de autodefesa? Por outro lado, deveria ter estado "grato" ao FSB por me darem uma granada, e não drogas, por exemplo, porque os centros de detenção e as prisões não tratam muito bem os condenados ao abrigo do artigo 228 (tráfico de drogas).
Na noite de 11 de março, fui levado ao escritório do FSB, onde vi o investigador Vlasov pela primeira vez e me foi designada a advogada Violetta Sineglazov. Uma senhora redonda e de rosto bondoso que me disse que, se confessasse tudo, em vez de voltar para casa só ao fim de seis anos, voltaria ao fim de três. O Investigador Vlasov prometeu ajudar-me com alimentos, roupas e – o principal argumento – a possibilidade de telefonar à minha esposa, que estava na Ucrânia continental (embora, como ele próprio disse, isso "não seja garantido"). Eu percebi que, se não houvesse advogados privados e honestos e conexões com o continente, eu teria poucas hipóteses ali.
Mais tarde, quando os advogados independentes Emil Kurbedinov e Oleksiy Ladin entraram no caso e eu denunciei a tortura no tribunal e retirei o meu testemunho dado sob tortura, fui levado para uma cave em Simferopol.
Lá, eles meditaram sobre o que fariam comigo. Eu pensei para comigo: “É o teu fim, Vladyslav! Agora vais ser enforcado. Em Kryvyi Rih, uma rua terá o teu nome, e as crianças perto do teu túmulo vão entrar para os pioneiros."
Mas passou.
Aqui no centro de detenção, como no "reino dos espelhos curvos", nada mostra a natureza podre do poder ocupante, mas a realidade espelha o constante enchimento das celas com novas pessoas que foram detidas com base em provas forjadas. Aqui, praticamente todos os dias, são presas novas pessoas sob suspeita de espionagem, planeamento de ataques terroristas e divulgação e propagação de movimentos religiosos proibidos na Rússia. Cheguei a ver três rapazes a serem presos, um dos quais tinha apenas 18 anos na época da sua detenção. O caso deles foi "costurado" como um caso de terrorismo (o nome de um deles é Valentin Khoroshavin). Eles foram presos por supostamente pendurar folhetos com símbolos ucranianos e quererem explodir o mercado em Simferopol. Qual o tema de conversa, se eu falasse com um cego que anda de bengala? Pois é, mas ele é considerado o chefe de um centro terrorista na Crimeia! E o que dizer de mim? Bem, após a declaração sobre tortura no FSB, não fui mais perturbado fisicamente. Tento praticar desporto enquanto caminho pelo pátio da prisão. Temos permissão para sair e tomar ar fresco uma vez por dia e leio a imprensa transmitida pela Ucrânia continental.
Sou grato ao grande número de pessoas e à comunicação social, que estão a lutar por mim, em particular, e que também dão apoio na Crimeia. Agradeço ainda ao FSB russo, que proporcionou uma oportunidade sem precedentes a um jornalista freelancer da “Radio Svoboda (Liberdade)” não apenas de se tornar um observador num centro de detenção na Crimeia ocupada, mas também de experimentar na pele os seus métodos de "investigação", os quais podem levar uma pessoa à loucura, ou simplesmente acabar com ela.
Não me quebraram, mas o meu cabelo parece que ficou grisalho.